No dia 30 de Setembro de 1965, um grito ensurdecedor encarquilhou a tinta das paredes da maternidade Alfredo da Costa, em Lisboa. O visionário Acácio Jeremias havia nascido!
De acordo com a enfermeira que auxiliou o parto de Matilde Jeremias (a mãe de Acácio), nunca um berro havia tido um efeito fÃsico tão proeminente nas paredes daquelas instalações.
Talvez tivesse a ver com o facto de Acácio vir a ser uma figura carismática capaz de mudar a face do paÃs. Ou talvez o motivo fosse, pura e simplesmente, por as tão esperadas obras de renovação da maternidade se estarem a atrasar.
Tal como tantos jovens no seu tempo, Acácio foi obrigado a deixar a escola primária após ter terminado a 4ª classe. Prosseguiu os seus estudos em diversos liceus lisboetas, tendo então ingressado no Instituto Superior Agrónomo onde concluiu o curso de Engenharia Agrónoma, variante Jornalismo Local (classificação final: MedÃocre).
Após uma rápida passagem pelo jornal regional de Celorico de Montragraço , Acácio foi convidado para integrar a redacção dum conhecido jornal diário (cujo nome não pode ser mencionado por razões legais).
Aos 30 anos, Acácio muda de casa após se ter convencido que o prédio onde habitava havia sido construÃdo sobre um antigo cemitério Ãndio.
Certo dia, o seu novo vizinho de cima decide fazer obras em casa. Acácio, assustado com o som das marteladas, julga estar a ouvir uma comunicação extra-terrestre transmitida em código de morse. E sai para a rua com o intuito de fornecer essa informação aos serviços secretos portugueses. Mas devido a uma troca de indicações, em vez de ir dar ao edifÃcio do SIS vai parar ao Centro Comercial da Mouraria. Uma vez no CCM, frequenta um curso intensivo de Zen Budismo numa associação espiritualista disfarçada de discoteca New Age.
Após as duas horas de duração do curso, Acácio sai para a rua. Tão fascinado se encontrava com os seus conhecimentos que até se esquece de olhar à sua volta antes de atravessar e leva uma cacetada dum autocarro da Carris (carreira 41). Ainda no ar, Acácio atinge o estado de nirvana. Mas assim que aterra no pavimento mergulha num estado de coma profundo, no qual permanece durante três anos e meio.
Acorda do seu coma no ano 2000, mesmo a tempo de assistir à passagem do milénio e, com uma ferocidade inexplicável, decide escrever cartas para uma série de empresas e entidades no nosso paÃs.
Graças aos seus inúmeros contactos no meio jornalÃstico, Acácio consegue convencer uma vanguardista editora nacional a editar o seu livro.
Brevemente, todos os portugueses poderão ter acesso à criatividade deste peculiar visionário por pouco mais de meia-dúzia de euros. Um investimento saudável, pensarão uns. “Um investimento no meu BMW novo!”, diz Acácio, meio a sério, meio a brincar.
O futuro ninguém conhece.
Mas duma coisa podemos estar certos.
O culto de Acácio Jeremias está agora a começar. E para alguém que constrói a sua visão através da palavra escrita, a frase feita “Uma palavra vale mais que mil imagens” nunca foi tão correcta. Ou, como Acácio se refere normalmente ao famoso dito, “Se uma palavra vale mais que mil imagens, uma imagem valerá muito pouco. Um milionésimo duma palavra, para ser mais preciso.”
Uma frase que, de resto, expõe a genialidade de Acácio Jeremias duma forma crua e gritante. Um pouco como o grito que acordou toda a gente na noite de 30 de Setembro de 1965.

