Sentámo-nos numa mesa do café Nicola com o auto-assumido visionário Acácio Jeremias. Apesar do seu livro “As Cartas de Acácio Jeremias” ainda não ter visto a luz do dia, paira no ar o aroma de sucesso. Acácio tem quarenta anos de idade. Muito embora, a um olhar desatento, ninguém lhe desse mais de trinta. O que é que pode então possuir um ex-jornalista dum conhecido diário nacional para começar a escrever cartas estapafúrdias para as mais variadas instituições e empresas deste país?
Desde pequeno que sempre tive jeito para escrever. Aos cinco anos de idade, muitos dos meus familiares pediam-me para ser eu a escrever cartas para os familiares que estavam emigrados em França.
O seu percurso profissional não deixa de ser curioso. Formou-se em Engenharia Agrónoma com variante de Jornalismo Local. É uma escolha de carreira peculiar, não acha?
Isso tratou-se apenas do curso que tirei. Um curso universitário não é uma carreira. Um curso universitário serve para adquirir alguns conhecimentos fundamentais e, acima de tudo, experimentar drogas desconhecidas.
E com a sexualidade também, arriscaria a afirmar?
Não. Está mais que visto que você não tem uma educação superior. As brincadeiras com a sexualidade experimentam-se nas escolas de teatro. Nas universidades normais experimentam-se drogas, aprende-se a organizar manifestações contra as propinas e fantasia-se sexualmente com aquelas colegas que agora fazem parte do elenco da série Maré Alta. (risos)
Pelo que sabemos de si, assim que terminou o curso trabalhou no jornal regional de Celorico de Montagraço. Conte-nos sumariamente a sua experiência nesse jornal.
Bem, acho que chamar jornal a esse pasquim é um péssimo começo. Quando lá cheguei, grande parte das pessoas ainda não sabiam sequer utilizar um computador. Havia para lá um, um Macintosh muito velhinho. Mas como ninguém o sabia meter a funcionar, estava a ser usado como travão para uma porta que batia com muita força por causa das correntes de ar que se faziam sentir na redacção quando alguém abria a porta da rua. Eu já sabia que ia ser um visionário. Para mim, trabalhar num jornal regional foi apenas uma forma de perceber como é que as mentes mais primitivas do jornalismo português funcionam.
Isso quer dizer que abordou esse emprego numa perspectiva puramente didáctica?
Precisamente! O mundo académico e jornalístico não se me apresentava como um desafio. Mas houve uma coisa que sempre apreciei nestes meios mais pequenos. Era a maneira como se desenrascavam peças de qualidade com um décimo dos recursos dos grandes jornais nacionais. Foi aí que acho que comecei a desenvolver a minha criatividade.
Dê-nos um exemplo, por favor.
Ora bem, talvez você não saiba porque trabalha para uma revista de meninos. Mas num jornal regional não há a filosofia de que aquele trabalho é um degrau para chegar a algo melhor. Aquilo é um emprego comum, exercido por pessoas que pertencem à comunidade sobre a qual escrevem. Isso parece ser limitativo mas, ao mesmo tempo, abre inúmeras portas. As pessoas não se incomodavam, por exemplo, se o jornal não saísse no dia certo. E não se incomodavam por um motivo muito simples. A maior parte das vezes, porque as únicas pessoas que - de facto - liam o jornal, eram as pessoas que tinham vindo connosco para os copos no dia do fecho de edição. O resto da populaça nem reparava que o jornal não tinha saído.
Fantástico! Então porquê vir trabalhar para o jornal diário onde ainda exerce funções (e que não podemos mencionar por motivos legais).
Chega a um ponto em que um gajo se farta de tudo. Tinha chegado um novo director ao jornal. Um puto cheio de sangue na guelra, vindo duma universidade privada qualquer. Abordou-nos cheio de ideias e entusiasmo, quis renovar tudo de alto a baixo e sabe-se lá que mais. O Celorico Montagrense (o nome do jornal) começou a assemelhar-se muito a um jornal normal. E para isso preferi trabalhar num jornal a sério. E também tive uns problemas pessoais que envolveram a namorada do novo director, uma ida fortuita a um cinema e uns preservativos defeituosos que já deviam ter passado do prazo. Achei que tinha chegado a altura de me pôr na alheta. E mais não digo sobre este assunto.
Caro Acácio, estive a ler a cópia promocional do seu livro antes de vir para esta entrevista…
Fico contente por saber que você fez o trabalho de casa! (risos)
…mas como dizia, li o seu livro e posso tomar a liberdade de dizer que o acho um génio?
Claro que pode. É muito amável da sua parte. Deixe-me tomar também a liberdade de lhe dizer que isso não é novidade para mim. Mas agradeço-lhe por ter reparado. É óbvio para nós, mas ainda não o é para muita gente.
Pois, mas nós na Focus andamos sempre um passo à frente. Diga-me uma coisa, quando é que acha que este livro vai estar disponível no mercado?
Isso é algo que terá de perguntar à editora. O material já se encontra na posse deles. Mas calculo que esteja cá fora lá para o Verão. O que fará com que este livro se torne uma excelente companhia de praia para todos os portugueses.
É notório nestas cartas um sarcasmo implícito nas perguntas que coloca. Será possível que ninguém percebeu que isto se tratou de um exercício de humor refinado?
Sim, muita gente se apercebeu disso. Mais concretamente, todos aqueles que não responderam às minhas cartas. Número esse que excedeu largamente os pobres coitados que se deram ao trabalho de me responder…
Tudo bem, mas calculo que quando tenha escrito ao Patriarcado de Lisboa a pedir-lhes para colocarem o Cristo Rei sobre uma plataforma giratória, talvez não estivesse propriamente à espera de uma resposta…
Ora aí é que você se engana! Eu continuo a achar que é uma excelente ideia! Já pensou na quantidade de crentes que vivem na margem Sul e que trabalham em Lisboa? Todas as manhãs entram na cidade e vêem o seu ídolo de costas. Imagine que pagava um bilhete para ver os Smashing Pumpkins e que eles tocavam o concerto todo de costas viradas para si. Você não ia gostar disso, pois não? A minha proposta era séria. Não sou crente pois considero-me um ser evoluído. Mas é preciso ter pena de toda a gentalha que entra todos os dias na cidade e que só apanha o J.C. pelos costados.
Então e o Acácio Jeremias na sua intimidade? O que é que nos pode falar de si?
Posso começar por lhe dizer que nunca falarei da minha vida íntima. Acho que é uma tendência idiota nos dias que correm e demonstrativa de falta de personalidade. Mas, na realidade, não sou muito diferente do homem comum. Apenas possuo mais inteligência, sentido de humor e uma genialidade fora do comum. Tirando isso, sou igual a qualquer um. Gosto de coisas simples. Aprecio jazz, gosto de cinema e sou um apaixonado por cultura urbana. O grafitti, para mim, é uma verdadeira paixão. Sempre que vou ao Aki não resisto a comprar algumas latinhas e escrever palavras de ordem em paredes diversas e viadutos. E gosto muito de charutos. Especialmente em locais fechados. Acho que a cultura do charuto está a voltar. E eu gosto de andar sempre dois passos à frente. Andar dois passos à frente significa, no fundo, ser mais decidido do que quem anda apenas um passo à frente. Duas vezes mais decidido, para ser mais preciso…
Acácio Jeremias, agradeço por ter arranjado algum tempo na sua atribulada agenda para nos conceder esta entrevista.
Eu é que agradeço. Afinal, vocês estão a ajudar-me a vender um livro que ainda não saiu. Por falar em dinheiro, lembrei-me agora que deixei a carteira no carro. Já que a Focus não me pagou cachet para esta entrevista, será que se importa de pagar este galão e esta tosta mista? (risos)
