Tem 40 anos, é jornalista e não gosta que lhe apontem o dedo. Não por convicção moral, mas porque - nas suas palavras - “ainda me tiram um olho!” . Autor do vindouro livro “As Cartas de Acácio Jeremias”, Acácio Jeremias assume-se como um “visionário”. “Antes de me tornar jornalista, considerei arranjar um part-time na Multi-ópticas. Daí a visionário foi um passo lógico.”. E foi no seu luxuoso apartamento lisboeta que Acácio nos concedeu esta entrevista. Tivemos de tirar os sapatos antes de entrar. “Toda a gente tira os sapatos antes de entrar na minha casa. Excepção feita aos pernetas que só têm de tirar o sapato. Chamem-lhe preciosismo, mas não gosto dos meus tapetes sujos de lama.”
Acácio Jeremias, conte-nos o porquê desta sua aventura na escrita de cartas.
Bem, a maior parte das pessoas acham que eu escrevi as cartas pensando em publicá-las logo de seguida. Isso não é verdade. Eu escrevi as cartas que escrevi com propósitos reais. As minhas dúvidas eram verdadeiras.
Mas há cartas cujos temas são notoriamente inventados! Você não trabalha para um Grupo Australiano chamado Connex Mex nem é casado com uma mulher de seis dedos que quer manicures a preço de cinco dedos. Como é que explica isso?
O que é que lhe garante que eu não possuo dupla personalidade (ou mesmo tripla ou quádrupla!)? Uma dessas personalidades pode muito bem viver vidas completamente distintas da minha.
Como?! Está-nos a querer dizer que considera mesmo a possibilidade de possuir as personalidades pelas quais se faz passar nas suas cartas?!
Repare, há muita coisa que ainda não se sabe sobre o cérebro e a mente humanas. E isto são neurologistas a afirmá-lo! Ora se os estudiosos da matéria admitem saber pouco sobre aquilo que é o seu objecto de estudo, quem sou eu para colocar de parte qualquer hipótese mais esotérica? A única coisa que eu sei foi que hoje acordei cheio de marcas na testa.
E acha que foi uma outra personalidade que feriu o seu corpo enquanto o “seu eu” dormia?
Por acaso sei que não. Sei que foi por ter dormido na ponta da cama e ter batido com a cabeça no bico da mesa-de-cabeceira. Mas aí está! Eu não me deitei na ponta da cama quando adormeci mas sim no meio. Parece-me plausível que outra personalidade tenha feito a sua vida normal depois de eu ter adormecido, tendo-se - essa sim - deitado à ponta da cama, pouco antes de eu acordar.
Isto está-me a começar a parecer uma conversa surreal. Diga-me, Acácio, o que é que espera atingir com este seu livro?
Nada mais, nada menos, que consciencialização por parte do público.
Isso é um pouco vago. Consciencialização dos seus ideais? Consciencialização de que a arte da escrita da carta não está perdida?
Não. Consciencialização de que eu preciso de um BWM novo! O meu 320d está a ficar velhinho e começa a dar problemas. Está na altura de adquirir um modelo novo ou, caso as vendas do livro corram como espero, fazer mesmo um upgrade para um modelo da série 6.
Quer dizer que a finalidade única que vê para o seu livro é o ganho de riqueza financeira?
Oiça, eu não sei em que ponto desta história é que se desenvolveu a ideia de que ganhar dinheiro é uma coisa má. Não há mal algum em ganhá-lo. O problema está em acumulá-lo. Há pessoas que amealham como formigas. Eu não tenho esses problemas. Eu sei gastá-lo e fazê-lo circular. Por isso, acho que o mereço mais do que a maior parte das pessoas. Os meus hábitos consumistas mantêm a economia em movimento.
De facto, reparo que não é um estranho ao luxo e ao bom gosto. A sua casa está muito bem decorada e aquele televisor de plasma da Lowe parece ter uma imagem excelente.
Não está a pensar em roubar-me a casa, pois não? (risos)
Não, claro que não! Estava apenas a fazer um reparo.
Então mas você veio aqui para fazer reparos ou entrevistas?
Er… entrevistas, claro. Diga-me, Acácio, não tem medo que as empresas visadas nas suas cartas se sintam alvo de chacota e o tentem processar?
Não, não tenho medo. Eu não tenho medo de nada. Não só porque é essa a minha natureza, mas também porque pedi um parecer a uma advogada muito jeitosa com quem namorei.
E ela disse-lhe que não teria problemas?
Ninguém no seu perfeito juízo me pode dizer uma coisa dessas! (risos) Mas, ao que parece, em termos legais, as cartas que as empresas me enviaram são - para todos os efeitos - propriedade minha e posso fazer o que entender delas, desde que não difame os seus autores. Ora como não está a ocorrer difamação alguma mas apenas uma sequência de carta enviada mais resposta recebida…
Acácio, já mencionou várias vezes que o exercício físico é muito importante para si. Costuma frequentar algum ginásio?
Há uns tempos estive inscrito no Holmes Place. Mas depois acabei por desistir. Os tipos são chatos comó raio! Não se pode estar numa passadeira ou numa máquina de remo sem um dos treinadores nos vir chatear com técnicas para tirar melhor partido do equipamento.
E foi por isso que desistiu?
Não. Desisti porque não responderam à carta que lhes mandei. E que respeito é que se pode ter por uma empresa que é toda sorrisos e amabilidade enquanto lá estamos, mas que depois não se dá ao trabalho de nos escrever de volta?
Então como é que o Acácio se exercita?
Tenho aqui um monte descampado ao pé de casa. Gosto de correr pelo monte abaixo, no meio do feno. Faz-me sentir mais em contacto com a natureza. Especialmente se levar um charuto aceso nos lábios.
